A expressão corporal, como um dos meios
mais velozes de comunicação, tem um primeiro exemplo
de eficácia nas ações do corpo animal. As regras de
seu comportamento estão regidas pelo instinto. E não
existem possibilidades de dúvida, confusão ou arrependimento.
A ordem é dada desde uma estrutura genética. A partir
da observação da conduta animal, muitos criadores
de teatro e da dança tem partido para a elaboração
de suas linguagens cênicas, despertando no ator e
ou bailarino a destreza e precisão de um animal. A
plenitude do significado de suas ações está em um
corpo habitado de impulsos que determinam sua sobrevivência.
Estes mesmos princípios de eficácia, alcançados pelo
ator e ou bailarino garantem a clareza dos conteúdos
registrados em sua presença física. Conforme avançamos
na escala de complexidade cênica comprovamos que as
energias corporais e mentais se alimentam de impulsos
vitais transformados segundo o nível de consciência
e visão estética do diretor/coreógrafo da cena. Num
paralelo, as energias do pensamento se apropriam das
fontes nervosas dos impulsos primitivos para adquirir
maior presença e vigor.
A alquimia secreta da vida cênica pode transformar
o "cobre em ouro". Sem dúvida, em cada um
dos níveis de qualquer fazer cênico está presente
a eficácia da comunicação através da organização dos
impulsos estratégicos. É a razão "invisível"
ou tácita das ações, que está por de trás da palavra
falada ou escrita.
Entendemos por impulso o estímulo nervoso que induz
a ação para satisfazer uma necessidade, que pode ser
física, emocional, mental ou metafísica. O impulso
se apresenta com base em uma necessidade aprendida;
a pulsão, pelo contrário, é uma força biológica inconsciente
que provoca determinadas condutas. A origem é corporal,
gerando um estado de excitação (produzindo fome, sede,
apetite sexual etc...) o que leva o organismo a agir,
até a obtenção do objeto que reduz a tensão. Dá lugar
a um tipo de ação não aprendida. Seu objetivo é assegurar
a sobrevivência mediante a eficaz adaptação ao meio.
Segundo Freud, a pulsão é um processo dinâmico que
consiste em um impulso (carga energética) provocando
no organismo a percepção de uma meta. O acento é posto
na orientação geral, mas que em uma finalidade precisa.
Existem fontes externas e internas que provocam esse
"fluxo constante de excitação do qual o organismo
não se pode escapar, sendo ele meio do funcionamento
do aparato psíquico". A pulsão é portanto uma
exigência de trabalho imposto ao aparato psíquico;
a pulsão de vida reúne todas as energias que têm relação
com a auto conservação, buscando sempre manter a coesão
da unidade das partes da substância vivente.
A criação artística e a criação intelectual têm um
relação na transformação da pulsão orgânica. Um exemplo
de como a descarga subterrânea sempre se encontra
em um corpo habitado de força e credibilidade oferece
Jerzy Grotowski em seu texto Resposta a Stanislavski.
Diz: "Na concepção de Stanislavski as ações físicas
eram elementos de comportamento, ações elementares
verdadeiramente física mas ligadas ao fato de relação
com os demais. ‘Olho, o olho nos olhos, trato de dominar.
Observo quem está contra, quem está a favor. Não olho
não quero encontrar em mim os argumentos’. Todas as
forças elementares no corpo estão orientadas para
alguém ou para si mesmo: escutar, olhar, manusear
o objeto, encontrar os pontos de apoio; tudo isto
é ação física". Olho, trato de dominar, não olho,
estou fraco. E mais a frente sublinha: "Nos instantes
de plenitude, o que em nós é animal, não é unicamente
animal, é toda a natureza, não só a natureza humana,
toda a natureza no homem."
Em momentos de confrontação ou alta tensão surgem
energias que de outra forma permanecem dormidas, num
momento crítico desencadeiam-se certos mecanismos
fisiológicos. Assim como nas respostas emocionais,
intervém o sistema nervoso e as glândulas endócrinas;
ante o stress, são liberados hormônios que preparam
o corpo para enfrentar a situação que produz excitação
ou tensão. Assim entendemos a origem da palavra DANÇA:
TAN, que em sânscrito significa tensão. A dramaturgia
teatral tem recorrido ao conflito para provocar este
mesmo estado de alerta no espectador.
É indispensável deixar claro que a noção de conflito
não necessariamente tem que ser narrativa, podendo
acontecer um conflito temático implícito, um luta
de energias contrárias confrontando dureza e ternura,
contraste e monotonia, onde a ação mesma, sem conteúdos
explícitos, desperta no organismo do bailarino/ator
esse desejável, melhor dizendo indesejável, estado
de consciência de sua própria memória sensorial e
afetiva. Neste sentido, a experiência do bailarino/ator
é o detonador de uma experiência igualmente rica no
espectador. Do caos – impulsos – criamos um cosmos.
Somos um cosmos de forças complementares que muitas
vezes interpretamos como opostas. Mas, ao contrário
os três níveis operacionais animal, emocional e intelectual
são inseparáveis no crescimento físico e mental. A
negação desta integração mente/corpo empobrece e distorce
a direção da mensagem. Dar ênfase ao corpo como músculo
somente, ou a razão e verbo, exclusivamente, é um
atentado contra a unidade, a claridade e a coerência.
Esta condição de unidade estrutural é a que deve coordenar
todo ato criativo, em todo tipo de expressão. Só assim
se garantirá a plenitude e a eficácia da comunicação,
da expressão corporal.