De onde parte a ação do ator, quando este
inicia a construção de um personagem? Como este processo
inicia? Da corporalidade e organicidade ou de um movimento
preciso de reflexão cerebral?
Qual é a melhor forma a ser utilizada para que o corpo
torne-se o "corpo condutor" o qual o espectador
identifica tão claramente?
Cabe esclarecer que este corpo condutor também pode ser
chamado de presença cênica. E, por presença cênica, compreendemos
o ato de prender a atenção do público, como que criando
fios invisíveis que ligam a platéia ao ator, sendo a melhor
e mais eficiente forma de comunicação corporal. Esta presença
cênica é a que mantém o jogo sagrado, ritual e indefinível
do ator no palco. A presença cênica está acontecendo quando
há o estabelecimento de uma relação entre o ator e o espectador
constituída numa base de troca, onde todos os sistemas
cênicos dependem do estabelecimento desta relação.
O que observa-se, voltando a questão da construção da
personagem, é a existência de duas tendências principais
ou concepções de encenação. A primeira propõe um corpo
preso especificamente a um sentido psicológico, intelectual
ou moral, onde o corpo não passa de um suporte no processo
da construção da criação teatral. Sua gestualidade ou
a sua propriedade específica do gesto é ilustrativa, e
apenas confirma e reafirma a palavra, se anulando diante
da presença dramática. Esse corpo representa, apenas cumprindo
determinações pré-estabelecidas fora dele, vindas do texto
ou do encenador. O corpo, assim, é submetido a um segundo
plano e, obediente, repete explicando mais ou redundantemente
o que é sugerido pelo texto.
A outra concepção não percebe o corpo como a expressão
de uma idéia ou de uma psicologia. Não submete o corpo
a um jogo de repetição explicativa da palavra. Este corpo
refere-se a si mesmo, substituindo desta forma o dualismo
corpo-mente pela idéia da produção corporal. Esta tendência,
predominante atualmente na prática da encenação, é mais
comum no teatro experimental. Uma evidência desta situação
é a tentativa dos encenadores, considerados de vanguarda,
de definir uma linguagem corporal do ator. Segundo Artaud:
"a nova linguagem física baseada em signos e não
mais em palavras".
Qual a melhor forma de trabalho? Depende da identificação
do ator com esta ou aquela forma de trabalho.
De qualquer forma, entendemos que o ator que consegue
ter um bom domínio da representação dos seus gestos e
do seu corpo propicia ao espectador perceber a sua personagem
de forma mais clara e eficiente, controlando assim a imagem
do espetáculo e a impressão que este pode causar ao público
em geral. Certamente, a prática teatral e uma boa reflexão
filosófica e teórica da estética que você pretenda imprimir
em seu trabalho, ou melhor, em seu ofício, serão os melhores
orientadores para a sua escolha. Boa sorte!