Uma obra teatral “narra um argumento que
está constituído por uma seqüência de incidentes em que
as pessoas (agentes) fazem e dizem coisas, ao mesmo tempo
em que acontecem outras”.
O primeiro objetivo de uma leitura seria o de tomar conhecimento
do argumento, ou melhor, da história da peça desde o princípio
até o final.
O diretor deverá ler a peça com uma imaginação dinâmica,
vendo a ação se desenvolver, sentindo as mutações, ouvindo
os diálogos, vendo os cenários e a iluminação, completando
as rubricas com a força de sua criatividade.
Existem peças cujas rubricas são insuficientes e o diretor
terá que usar de todo a sua fantasia para desvendar o que
não foi dito. Algumas vezes o diretor terá que descobrir
dentro das próprias falas o que falta na rubrica.
Voltamos a lembrar a passagem de Gordon Craig. Em princípio
as impressões retidas nesta primeira leitura, seriam as
impressões de um público normal. Entre a composição de uma
obra e sua representação, há uma série de fases, de apropriações
e desapropriações causadas pelos atores e espectadores:
a sua imaginação motiva e mantém esses mal-entendidos.
Desde a sua criação, uma obra leva em si três tendências,
três princípios deformadores, três peças distintas: a que
o autor crê haver escrito, a que os atores interpretam e
a que a maioria dos espectadores crê entender. O autor pretende,
o ator pretende à sua maneira, e o público, que tomou a
sua atitude de julgar, recebe de outro modo.
Desta forma, ao acabarmos de ler a obra estaremos mais ou
menos próximos da opinião de um público desprevenido, de
um público que vai para assistir e reagir a um espetáculo
e não pretende dar opiniões brilhantemente inteligentes
no final de cada ato. Assim, a finalidade do teatro não
é talvez uma busca de ordem intelectual, senão uma revelação
de ordem sentimental.
Podemos então perguntar ao texto: Por que esta obra desperta
interesse? Por que satisfaz o interesse? Por causa da história
que conta? Pelos pensamentos que emite? Pelos personagens?
Pelas emoções evocadas? Que é que faz com que os personagens
de determinada obra sejam interessantes em si mesmo e obrigue
ao público se interessar pelo que ocorre em cena?
Jean Villar emprega o termo “Personagem aberto” para designar
a figura imaginada pelo poeta, que transborda as interpretações
possíveis e pode, independentemente aos marcos sociais,
impor-se a grupos diferentes, suscitar uma participação
coletiva universal.
Existe uma fonte de interesse nesta obra? Que classe de
efeitos produz? Serão efeitos cômicos? Dramáticos? Poéticos?
— Um autor tenta despertar o interesse do público e conduzi-lo
a um determinado fim. “Se põe uma obra em cena por uma
necessidade de satisfação que no fundo é a finalidade do
teatro, a necessidade que tem o autor de libertar-se de
algo que o persegue, e que leva dentro de si”, e o que poderíamos
chamar de mensagem da peça.
Uma peça pode ter mais de uma mensagem ou pode durante o
seu desenvolvimento trazer mais de um efeito. Em Romeu e
Julieta, por exemplo, as cenas de grande dramaticidade são
precedidas de aparições cômicas. Nesta peça temos, cenas
românticas e poéticas como a cena do balcão, dramática,
como a cena em que Julieta toma o narcótico, cômicas, como
as cenas da ama e as cenas de Mercuccio.
Continuando o nosso roteiro, o que conduz a uma grande cena?
Uma obra é composta de cenas, todas elas são interrelacionadas,
compondo a cadeia dramática. Em toda cena existe um momento
alto, mas existe um momento em que podemos situar a grande
cena, passando a ser o momento culminante. Para esta cena
é que todas as outras cenas deverão ser conduzidas.
Voltando ao Romeu e Julieta, o ponto alto do primeiro ato
é o encontro dos amantes durante o baile. Pois bem, todas
as cenas deste ato deverão estar sendo dirigidas para este
encontro romântico e proibido. Este é no 1° ato o ponto
alto, a grande cena.
Se não descobrirmos as partes importantes à direção da peça
perderá a unidade e conseqüentemente mudaremos o sentido
geral da obra. Suponhamos por acaso que enfatizassemos
por demais as cenas cômicas de Romeu e Julieta, ao chegarmos
nos momentos dramáticos, estes não estariam preparados para
receber a densidade trágica e as cenas não teriam sustentação.
É necessários que cada cena seja condutora para a cena seguinte,
e todas elas distribuídas para o efeito total quando um
caráter reage frente a outro, ou toma uma deliberada decisão
angustiosa, os elementos do conflito estão presentes. Em
um drama bem organizado, as tensões e os conflitos internos
conduzem a combates externos.
Depois de determinarmos a natureza dos conflitos, como nascem,
como se desenvolvem, para onde nos conduzem estes mesmos
conflitos e suas respectivas conseqüências, passamos a estabelecer
os matizes desses conflitos, as implicações secundárias,
aquelas implicações que correm paralelas ao drama principal.
Com isto, vemos que além dos protagonistas, existem um
mundo de pequenos outros personagens possuidores de vidas
próprias, com seus respectivos conflitos e problemas, que
nos passam despercebidos numa simples leitura. A eles devemos
dar o devido cuidado. Eles fazem como que um fundo a figura
principal. Numa pintura, por exemplo, além da figura principal,
temos no fundo uma série de outras figuras que além de auxiliarem
ao artista na determinação da forma e composição, muitas
vezes, servem para determinar o ambiente e o clima da obra.
Como nós já vimos, em toda a obra de arte nós temos a forma
e o conteúdo, ou melhor, dizendo, forma é o modo pelo qual
o artista utiliza os elementos específicos de expressão,
e o conteúdo é aquilo que o artista representa ou narra,
isto é, o assunto.
Desta forma um personagem que apenas aparece em uma pequena
cena, serve muitas vezes para situar o verdadeiro clima
da peça, dar uma opinião do mundo exterior. Um exemplo seria
o diálogo entre os dois criados no início de Romeu e Julieta.
Este diálogo simples, é suficiente para mostrar o clima
de ódio e disputa em que viviam as duas famílias. Ou então
do diálogo de Hamlet do início, já transcrito em outro
capítulo.
Muitas vezes o autor coloca um personagem de pequena importância
unicamente para fazer um comentário de como a sociedade
vê o fato exposto, de maneira a mostrar melhor o contraste
ou a diversidade de opiniões. A esses pequenos personagens
que muitas vezes são vestidos de vizinhos, criados, camponeses,
devemos dar muito atenção, em suas falas podem ocultar toda
a estrutura da peça.
Uma outra pergunta a se fazer no texto seria: Qual a natureza
da trama e do argumento? Qualquer problema esboçado nas
primeiras cenas levará ao problema principal pela progressão
da trama. Muitas vezes os primeiros problemas esboçados
não são na verdade o verdadeiro conflito da peça, mas serão
fatalmente os elos condutores a este problema principal.
A discussão entre os criados da casa dos Capuletos com os
criados da casa dos Montecchio, provocará a entrada de Teobaldo
da Casa dos Capuletos e desta forma provocar a ira do Príncipe
de Verona que baixará um edital que no 3° ato exilará Romeu.
Como vimos, esta pequena seqüência mostra como uma progressão
é como uma cadeia de elos.
Numa peça os elos não devem ficar soltos ou abandonados.
O que não for importante não é necessário. Um fotógrafo,
que sai para passear num domingo, toma um instantâneo de
uma paisagem. De certo modo ele é fiel à paisagem. Porém
o artista que chega ao mesmo lugar pode compor com a palheta
uma interpretação, que, se bem que se afaste de alguns aspectos
das formas observadas, conserva o essencial, que é mais
fiel à paisagem que o registro preciso da máquina fotográfica.
Desta forma, da mesma maneira que um pintor, o diretor pode
usar em sua arte a mesma liberdade de interpretação, valendo-se
da seleção, o exagero, a deformação o reordenamento.
Para que a atenção do público não se disperse, deve o diretor
conduzi-la para o efeito desejado, enfatizar o que deve
ser realmente percebido, selecionar aquilo que é mais importante
para que o espetáculo chegue a seu termo como uma obra única.
A isso chamaremos “organização formal da trama”. Qual a
principal questão da obra? Como respondida? Com isto já
estaremos fazendo um processo seletivo.
Toda obra, ainda que medíocre tem algo a dizer. Ela foi
escrita porque o autor pretendia dizer alguma coisa para
o mundo. Ela propõe alguma coisa, protesta contra uma instituição
social ou pretende revelar uma angústia secreta, uma paixão
desenfreada ou mesmo um acontecimento pitoresco. Esta resposta
tem que ser dada antes de qualquer coisa. Sem isso, o diretor
vai tatear às cegas diante de um espetáculo sem objetivo.