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A Igreja que prevalece

Autor: Carlos Alberto de Quadros Bezerra
 
Quero introduzir esta palavra destacando a experiência do reavivamento leigo que aconteceu nos Estados Unidos em 1850. Começou numa igreja em Nova York. Um cristão leigo havia começado uma reunião de oração ao meio-dia, no centro da cidade.
Logo o santuário ficou lotado, sendo as reuniões marcadas por quebrantamento e grande fervor. Aquelas reuniões atraíam muitas pessoas que haviam ficado desempregadas repentinamente, e não havia associação para proteção dos trabalhadores, seguro-desemprego e outras garantias empre-gatícias. Os desempregados ficaram com medo e se voltaram para Deus. A maioria das igrejas daquela época não tinha mais cultos de oração, mas tiveram que abrir espaços para este tipo de reunião devido aos pedidos das pessoas, pois não tinham a quem recorrer.

Igualmente, nos dias de hoje, principalmente depois dos fatos de 11 de setembro de 2001, muitos estão se voltando para a oração. Nunca o povo americano buscou tanto as igrejas como agora, após as terríveis fatalidades que se abateram sobre aquela nação. Acredito que, quando essa tempestade que se aproxima do mundo todo chegar, e certamente dias piores virão, muitos e muitos também em nossa nação estarão entrando em pânico, desejosos de experimentar esta dependência de Deus através da oração, causada pelo medo do futuro.

As pessoas, nestes dias de grande expectativa que se abatem sobre o mundo, fugirão dos falsos evangelhos e das igrejas do evangelho fique-à-vontade – aquele que prega a simples adesão a uma religião para que todos os problemas se resolvam automaticamente. Quantos e quantos estão aderindo hoje aos movimentos populares evangélicos? Os cristãos brasileiros – tenho certeza – vão deixar de buscar esses movimentos centralizados no entretenimento gospel (sem crítica aos que fazem isto) e da chamada "TV cristã", que de cristã nada tem, e passarão a exigir de fato uma verdade sólida.

Infelizmente, o que temos visto produz um falso cristianismo entre nós. As pessoas sairão para ouvir pastores piedosos, exigindo a verdadeira Palavra de Deus, porque o povo está cansado de ouvir bazófia e conversa fiada. O grito deste povo será: "Quem vai pregar para nós uma palavra profética para nosso coração, que transforme a nossa vida de fato, verdades que precisamos ouvir, aquilo que pode mudar o nosso coração?"

Muitas vezes perguntam-me se acho que estamos vivendo um grande avivamento no Brasil. E eu questiono se temos um verdadeiro avivamento em nossos dias – o que tenho visto são igrejas cheias de pessoas famintas, mas sendo alimentadas com palha. As igrejas estão cheias de pessoas vazias. Quando me dizem que o avivamento brasileiro é um espetáculo, que há igrejas lotadas e com vários cultos num mesmo dia, eu pergunto: que tipo de transformação real este evangelho tem produzido na vida das pessoas, nas famílias, na sociedade brasileira, na política, na vida dos homens públicos? Estamos vivendo um avivamento ou apenas uma avivação – muito barulho, promessas, desafios, regras para conquistar prosperidade que, ao invés de trazer firmeza ao coração, tem trazido maior confusão?

Creio, sim, num grande avivamento, e nossa nação há de prová-lo. Mas não será isso que vemos atualmente. Ninguém vai ficar rindo ou fazendo ruídos animalescos naqueles dias de terríveis ajustes na Igreja, quando o Senhor a chama – e a seu povo – ao arrependimento. Este Evangelho do arrependimento não é o evangelho popular. O Evangelho da justiça e da santidade está ultrapassado em nossos dias. Hoje a moda é saber quem é mais rico, mais poderoso, quem vai receber mais honra, os melhores títulos. Há grupos em litígio para saber quem vai ordenar o maior grupo dos famosos "apóstolos". Vemos competição e barganha, que tem trazido confusão para dentro da Igreja de Deus. Este tipo de porfia e luta para conquistar os mais destacados títulos tem trazido males a todos.

Precisamos de um tipo de avivamento que atenda às necessidades desta sociedade, que chegou ao máximo de promiscuidade e avareza, de indiferença e erotização de todos os meios de comunicação possíveis. Precisamos do avivamento da pregação da verdade de Deus, do Evangelho que é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê – o verdadeiro instrumento transformador do homem em nossos dias. Este Evangelho é que precisamos pregar para que haja avivamento: o que transforma malditos pecadores em santos de Deus. A resposta a qualquer apostasia, crise e caos será sempre uma renovada revelação do Cristo ressuscitado, daquele que venceu o poder da morte, que triunfou sobre principados e potestades e nos deu a sua vitória.

Jesus identificou o ministério do Espírito Santo como aquele que ensina todas as coisas e lembra as suas palavras (João 14.26). Ele é o Espírito da Verdade, que guia a toda verdade (João 16:.3). O Espírito Santo não sustenta o testemunho de qualquer evangelho ou de manifestações carnais. O verdadeiro Evangelho fala de abandono do pecado, da libertação da miséria da escravidão ao pecado, da obra de Cristo na cruz em nosso favor. Fomos crucificados juntamente com Cristo, e ressuscitados juntamente com ele para vivermos em novidade de vida. Este é o Evangelho da cruz, que produz a verdadeira vida, e não um evangelho que produz transformações aparentes, apenas estéticas.

Entretanto, vemos hoje muitos cristãos, carismáticos, que falam muito de serem cheios do Espírito Santo, mas inteiramente esvaziados da verdade, sem intimidade com Jesus. Não tremem diante da verdade da Palavra, não sabem como viver dependendo inteiramente dele, e distorcem, manipulam e interpretam erroneamente a Palavra para que ela se adapte aos seus propósitos pessoais e às suas vontades carnais. Deus não tem compromisso com o evangelho dos homens, mas com o Evangelho da verdade.

Jesus disse que não devemos tremer de medo das coisas terríveis que acontecem ou vão acontecer, mas temer à sua santa Palavra. "Porque a minha mão fez todas estas coisas, e todas vieram a existir, diz o SENHOR, mas o homem para quem olharei é este: o aflito e abatido de espírito e que treme da minha palavra" (Isaías 66.2).

Este é o homem que Deus ouve e conhece: aquele que treme diante da Palavra de Deus. O que vamos pregar para produzir transformação na nação? Nosso sentimento e nossas idéias, nossos projetos pessoais? Deus tem compromisso somente com sua Palavra, que permanece imutável para sempre!


A experiência de Sansão

Sansão representa bem o que acontece hoje: ministérios e ministros que festejam o poder do Espírito Santo, mas desvalorizam o Espírito da verdade. Sansão era um homem totalmente despreparado para as crises que sua geração enfrentou: usou mal seus dons, desperdiçou o poder do Espírito Santo. O seu fracasso é uma lição para a Igreja de nossos dias. Quando Sansão nasceu, Israel estava na pobreza, sofrendo grande aflição, pois tinham feito o que era mal aos olhos do Senhor (Juízes 13.7). Mas Sansão foi levantado para ser um libertador naquela época. Ele havia sido chamado desde o berço para ser um nazireu – nomeado para viver uma vida santa e separada.

Ao se mover sobre Sansão, o Espírito confirmava a palavra que lhe fora ensinada na infância. Sansão sabia que o segredo do seu poder estava em sua dependência do Senhor. Deus nunca enviaria um homem para realizar uma obra de poder sem antes lhe ensinar a maneira como o Espírito Santo age sobre as pessoas. Sansão deveria se manter sob a cobertura do Espírito da Verdade, a fim de ministrar este poder do Espírito da verdade.

Entretanto, sabemos que Sansão tinha uma concupiscência esmagadora por mulheres estranhas. O negócio dele era a sensualidade. Primeiro, teve um relacionamento com uma Cananéia; depois, com uma meretriz da cidade de Gaza; mais adiante, um relacionamento com a prostituta Dalila. Ele sofria do vício do sexo, e não resistia a alguém do sexo oposto. Obviamente, o Espírito Santo sabia das inclinações de Sansão para a lascívia. E na medida em que movia Sansão, o fazia ciente da verdade de Romanos 8.13: "Se pelo Espírito mortificardes os feitos do corpo, certamente vivereis." O Espírito Santo sempre fala às pessoas incomodadas pelo pecado, insistindo sempre: "Confie em mim, confie em mim, eu lhe mostro o caminho para uma vitória consagradora!"

Sansão jamais se firmou na verdade. Qualquer um que tiver a ousadia de usar o poder do Espírito Santo separado da verdade criará apenas aparência e encenação. Quando Sansão visitou a meretriz em Gaza, as pessoas da cidade o esperaram para prendê-lo. E algo sobrenatural aconteceu, como relata Juízes 16:3: ele esteve deitado até a meia-noite, pegou as folhas da porta da cidade, com as ombreiras e a tranca, colocou sobre os ombros e levou até o cimo do monte. Que força tremenda, que homem poderoso, que grande poder, que feitos extraordinários aos olhos do povo! Que manifestação de glória – a glória pessoal dele mesmo. O ato de Sansão foi uma demonstração sobrenatural de poder, mas na realidade resultou em nada mais do que simplesmente agitação diante de uma cidade sonolenta de ímpios desinteressados. Não houve vitória, resgate de escravidão ou libertação.

O que produziu tudo aquilo? O que produzem as grandes manifestações de nossos feitos, nossas obras e atividades? Muitos chamados "reaviva-mentos" se desenvolvem diante de um mundo que não é afetado por tais demonstrações. Aí estão os meios de comunicação mostrando a presença eloqüente dos artistas e jogadores evangélicos, mas onde estão as mudanças? Há pessoas que se dizem evangélicas fazendo programas eróticos, jogadores que dão mau testemunho publicamente. Onde estão as transformações?

Dizemos que nos tornamos um país que está sendo cristianizado a cada dia, onde aumenta o número de evangélicos, e onde está a influência deste cristianismo? É um cristianismo mais por adesão do que por conversão, no qual não é preciso mudar nada. Isso é mera agitação, movimento na água. Talvez você pergunte: "Mas você não crê nas manifestações do Espírito Santo nestes dias?" Sim, eu creio, mas se não for manifestada no Espírito da verdade, não serve para nada, pois somente a verdade liberta as pessoas.

Pense no quão pouco Sansão realizou em seu ministério, com demonstrações de poder sem propósito: matou um leão com as próprias mãos, prendeu 300 raposas e amarrou seus rabos todos juntos, queimou alguns campos e árvores frutíferas, mas ninguém foi libertado por nenhum daqueles atos praticados. Deus lhe havia dado a oportunidade de trazer a glória de Deus para sua época, pois o Espírito Santo estava à sua disposição para operar a libertação e a transformação de sua nação.

O fato trágico da vida de Sansão é que ele falhou totalmente em sua missão. Após 20 anos de trabalho, Israel continuava na mesma miséria de quando ele começou a julgar. Apenas manifestações que mostravam o poder pessoal dele e sua glória, e mais nada. Você foi chamado para demonstrar um Evangelho que transforma o homem e faz dele uma nova criatura, que produz transformações reais!

O exemplo de Saul

Saul é outro exemplo deste tipo de pessoa comprometida com sua glória pessoal. Ele também foi tomado pelo Espírito Santo, prostrou-se diante de Deus e profetizou, mas no fim era somente encenação, aparência. Saul não teve seu coração transformado, não era íntegro e reto seu coração. Ele mantinha tantas ambições pessoais! Começou bem, mas deixou seu coração se corromper. Não deixe seu coração se corromper pelas ambições pessoais, por dinheiro, por sexo, por glória pessoal. Este homem está destinado a perder tudo o que tem – até a própria vida e o maior dos privilégios: o de produzir a honra e a glória do Senhor Jesus Cristo.

Saul não se submeteu ao Espírito da verdade. O poder do Espírito Santo repousa na verdade, na Palavra, na cruz. Muitos pastores e evangelistas não têm interessem em buscar o Espírito da verdade. Acham que podem invocar o Espírito Santo a qualquer momento, mas não estarão prontos para enfrentar os dias de trevas que estão por vir. Homens e mulheres que temem diante da Palavra de Deus é que experimentarão o pleno e poderoso avivamento!

Deus está purificando sua Igreja. Você é ministro deste Evangelho da graça de Deus. Você é o ministro, o instrumento que Deus tem, o exército que Deus tem, o filho que Deus tem, o obreiro que Deus tem, o pastor que Deus tem, o santo, a lavoura que Deus tem para usar nestes dias, e a glória será dele. E as almas virão aos pés dele, e o nome dele será honrado. Nos dias em que estamos vivendo, o avivamento não virá através de shows de ostentação ou ensinos sobre prosperidade. Virá por um grupo oculto, feito de pastores e leigos que freqüentaram a escola de Jesus, aprendendo seus caminhos e confiando nele.

Quero desafiar você a experimentar o Espírito da Verdade em sua vida, que é capaz de fazer de você um ministro de verdade. Chega de termos igre- jinhas pequeninas! Isto, mais do que falta de visão, é falta de compaixão por um mundo sem Deus. Deus quer multiplicar esta semente através de você. Ele deseja ministérios que alcancem a nação e o mundo, capazes de fazer a nossa geração lembrar que houve um povo que amou o perdido e teve o compromisso de fazer dele discípulo de Jesus Cristo.

Não quero apenas um ministério que se multiplique, mas que faça discípulos parecidos com o Senhor Jesus, dependentes do Espírito da verdade; que não produzam obras como Sansão ou Saul, mas obras como as de Jesus e, tal como ele mesmo disse, maiores do que as dele. Você esta sendo convocado para escrever a história da Igreja nestes dias, e o Espírito Santo vai usar você. Você é o corpo de Cristo neste mundo. Ele tem o compromisso de operar através de você, e expandir o seu Reino. Com quantos o Espírito da Verdade pode contar hoje?

Carlos Alberto de Quadros Bezerra
Pastor da Igreja Comunidade da Graça e presidente do
Conselho de Pastores e Ministros Evangélicos do Estado de São Paulo.

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