A
Vida do Apóstolo Paulo
Autor: Desconhecido
“Ele era um homem de pequena estatura”, afirmam os Atos
de Paulo, escrito apócrifo do segundo século, “parcialmente
calvo, pernas arqueadas, de compleição robusta, olhos
próximos um do outro, e nariz um tanto curvo.”
Se esta descrição merecer crédito, ela fala um bocado
mais a respeito desse homem natural de Tarso, que viveu
quase sete décadas cheias de acontecimentos após o nascimento
de Jesus. Ela se encaixaria no registro do próprio Paulo
de um insulto dirigido contra ele em Corinto. “As cartas,
com efeito, dizem, são graves e fortes; mas a presença
pessoal dele é fraca, e a palavra desprezível” (2 Co
10:10).
Sua verdadeira aparência teremos de deixar por conta
dos artistas, pois não sabemos ao certo. Matérias mais
importantes, porém, demandam atenção — o que ele sentia,
o que ele ensinava, o que ele fazia.
Sabemos o que esse homem de Tarso chegou a crer acerca
da pessoa e obra de Cristo, e de outros assuntos cruciais
para a fé cristã. As cartas procedentes de sua pena,
preservadas no Novo Testamento, dão eloqüente testemunho
da paixão de suas convicções e do poder de sua lógica.
Aqui e acolá em suas cartas encontramos pedacinhos de
autobiografia. Também temos, nos Atos dos Apóstolos,
um amplo esboço das atividades de Paulo. Lucas, autor
dos Atos, era médico e historiador gentio do primeiro
século.
Assim, enquanto o teólogo tem material suficiente para
criar intérminos debates acerca daquilo em que Paulo
acreditava, o historiador dispõe de parcos registros.
Quem se der ao trabalho de escrever a biografia de Paulo
descobrirá lacunas na vida do apóstolo que só poderão
ser preenchidas por conjeturas.
A semelhança de um meteoro brilhante, Paulo lampeja
repentinamente em cena como um adulto numa crise religiosa,
resolvida pela conversão. Desaparece por muitos anos
de preparação. Reaparece no papel de estadista missionário,
e durante algum tempo podemos acompanhar seus movimentos
através do horizonte do primeiro século. Antes de sua
morte, ele flameja até entrar nas sombras além do alcance
da vista.
Sua Juventude:
Antes, porém, que possamos entender Paulo, o missionário
cristão aos gentios, é necessário que passemos algum
tempo com Saulo de Tarso, o jovem fariseu. Encontramos
em Atos a explicação de Paulo sobre sua identidade:
“Eu sou judeu, natural de Tarso, cidade não insignificante
da Cilícia” (At 21:39). Esta afirmação nos dá o primeiro
fio para tecermos o pano de fundo da vida de Paulo.
A) Da Cidade de Tarso. No primeiro século, Tarso era
a principal cidade da província da Cilícia na parte
oriental da Ásia Menor. Embora localizada cerca de 16
km no interior, a cidade era um importante porto que
dava acesso ao mar por via do rio Cnido, que passava
no meio dela.
Ao norte de Tarso erguiam-se imponentes, cobertas de
neve, as montanhas do Tauro, que forneciam a madeira
que constituía um dos principais artigos de comércio
dos mercadores tarsenses. Uma importante estrada romana
corria ao norte, fora da cidade e através de um estreito
desfiladeiro nas montanhas, conhecido como “Portas Clicianas”.
Muitas lutas militares antigas foram travadas nesse
passo entre as montanhas.
Tarso era uma cidade de fronteira, um lugar de encontro
do Leste e do Oeste, e uma encruzilhada para o comércio
que fluía em ambas as direções, por terra e por mar.
Tarso possuía uma preciosa herança. Os fatos e as lendas
se entremesclavam, tornando seus cidadãos ferozmente
orgulhosos de seu passado.
O general romano Marco Antônio concedeu-lhe o privilégio
de libera civitas (“cidade livre”) em 42 a.C. Por conseguinte,
embora fizesse parte de uma província romana, era autônoma,
e não estava sujeita a pagar tributo a Roma. As tradições
democráticas da cidade-estado grega de longa data estavam
estabelecidas no tempo de Paulo.
Nessa cidade cresceu o jovem Saulo. Em seus escritos,
encontramos reflexos de vistas e cenas de Tarso de quando
ele era rapaz. Em nítido contraste com as ilustrações
rurais de Jesus, as metáforas de Paulo têm origem na
vida citadina.
O reflexo do sol mediterrânico nos capacetes e lanças
romanos teriam sido uma visão comum em Tarso durante
a infância de Saulo. Talvez fosse este o fundo histórico
para a sua ilustração concernente à guerra cristã, na
qual ele insiste em que “as armas da nossa milícia não
são carnais, e, sim, poderosas em Deus, para destruir
fortalezas” (2 Co 10:4).
Paulo escreve de “naufragar” (1 Tm 1:19), do “oleiro”
(Rm 9:21), de ser conduzido em “triunfo” (2 Co 2:14).
Ele compara o “tabernáculo terrestre” desta vida a um
edifício de Deus, casa não feita por mãos, eterna, nos
céus” (2 Co 5:1). Ele toma a palavra grega para teatro
e, com audácia, aplica-a aos apóstolos, dizendo: “nos
tornamos um espetáculo (teatro) ao mundo” (1 Co 4:9).
Tais declarações refletem a vida típica da cidade em
que Paulo passou os anos formativos da sua meninice.
Assim as vistas e os sons deste azafamado porto marítimo
formam um pano de fundo em face do qual a vida e o pensamento
de Paulo se tornaram mais compreensíveis. Não é de admirar
que ele se referisse a Tarso como “cidade não insignificante”.
Os filósofos de Tarso eram quase todos estóicos. As
idéias estóicas, embora essencialmente pagãs, produziram
alguns dos mais nobres pensadores do mundo antigo. Atenodoro
de Tarso é um esplêndido exemplo.
Embora Atenodoro tenha morrido no ano 7 d.C., quando
Saulo não passava de um menino pequeno, por muito tempo
o seu nome permaneceu como herói em Tarso. E quase impossível
que o jovem Saulo não tivesse ouvido algo a respeito
dele.
Quanto, exatamente, foi o contato que o jovem Saulo
teve com esse mundo da filosofia em Tarso? Não sabemos;
ele não no-lo disse. Mas as marcas da ampla educação
e contato com a erudição grega o acompanham quando homem
feito. Ele sabia o suficiente sobre tais questões para
pleitear diante de toda sorte de homens a causa que
ele representava. Também estava cônscio dos perigos
das filosofias religiosas especulativas dos gregos.
“Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia
e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens... e
não segundo Cristo”, foi sua advertência à igreja de
Colossos (Cl 2:8).
B) Cidadão Romano. Paulo não era apenas “cidadão de
uma cidade não insignificante”, mas também cidadão romano.
Isso nos dá ainda outra pista para o fundo histórico
de sua meninice.
Em At 22:24-29 vemos Paulo conversando com um centurião
romano e com um tribuno romano. (Centurião era um militar
de alta patente no exército romano com 100 homens sob
seu comando; o tribuno, neste caso, seria um comandante
militar.) Por ordens do tribuno, o centurião estava
prestes a açoitar Paulo. Mas o Apóstolo protestou: “Ser-vos-á
porventura lícito açoitar um cidadão romano, sem estar
condenado?” (At 22:25). O centurião levou a notícia
ao tribuno, que fez mais inquirição. A ele Paulo não
só afirmou sua cidadania romana mas explicou como se
tornara tal: “Por direito de nascimento” (At 22:28).
Isso implica que seu pai fora cidadão romano.
Podia-se obter a cidadania romana de vários modos. O
tribuno, ou comandante, desta narrativa, declara haver
“comprado” sua cidadania por “grande soma de dinheiro”
(At 22:28). No mais das vezes, porém, a cidadania era
uma recompensa por algum serviço de distinção fora do
comum ao Império Romano, ou era concedida quando um
escravo recebia a liberdade.
A cidadania romana era preciosa, pois acarretava direitos
e privilégios especiais como, por exemplo, a isenção
de certas formas de castigo. Um cidadão romano não podia
ser açoitado nem crucificado.
Todavia, o relacionamento dos judeus com Roma não era
de todo feliz. Raramente os judeus se tornavam cidadãos
romanos. Quase todos os judeus que alcançaram a cidadania
moravam fora da Palestina.
C) De Descendência Judaica. Devemos, também, considerar
a ascendência judaica de Paulo e o impacto da fé religiosa
de sua família. Ele se descreve aos cristãos de Filipos
como “da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu
de hebreus; quanto à lei, fariseu” (Fp 3:5). Noutra
ocasião ele chamou a si próprio de “israelita da descendência
de Abraão, da tribo de Benjamim” (Rm 11:1).
Dessa forma Paulo pertencia a uma linhagem que remontava
ao pai de seu povo, Abraão. Da tribo de Benjamim saíra
o primeiro rei de Israel, Saul, em consideração ao qual
o menino de Tarso fora chamado Saulo.
A escola da sinagoga ajudava os pais judeus a transmitir
a herança religiosa de Israel aos filhos. O menino começava
a ler as Escrituras com apenas cinco anos de idade.
Aos dez, estaria estudando a Mishna com suas interpretações
emaranhadas da Lei. Assim, ele se aprofundou na história,
nos costumes, nas Escrituras e na língua do seu povo.
O vocabulário posterior de Paulo era fortemente colorido
pela linguagem da Septuaginta, a Bíblia dos judeus helenistas.
Dentre os principais “partidos” dos judeus, os fariseus
eram os mais estritos (veja o capítulo 5, “Os Judeus
nos Tempos do Novo Testamento”). Estavam decididos a
resistir aos esforços de seus conquistadores romanos
de impor-lhes novas crenças e novos estilos de vida.
No primeiro século eles se haviam tornado a “aristocracia
espiritual” de seu povo. Paulo era fariseu, “filho de
fariseus” (At 23.6). Podemos estar certos, pois, de
que seu preparo religioso tinha raízes na lealdade aos
regulamentos da Lei, conforme a interpretavam os rabinos.
Aos treze anos ele devia assumir responsabilidade pessoal
pela obediência a essa Lei.
Saulo de Tarso passou em Jerusalém sua virilidade “aos
pés de Gamaliel”, onde foi instruído “segundo a exatidão
da lei. . .“ (At 22:3). Gamaliel era neto de Hillel,
um dos maiores rabinos judeus. A escola de Hilel era
a mais liberal das duas principais escolas de pensamento
entre os fariseus. Em Atos 5:33-39 temos um vislumbre
de Gamaliel, descrito como “acatado por todo o povo.”
Exigia-se dos estudantes rabínicos que aprendessem um
ofício de sorte que pudessem, mais tarde, ensinar sem
tornar-se um ônus para o povo. Paulo escolheu uma indústria
típica de Tarso, fabricar tendas de tecido de pêlo de
cabra. Sua perícia nessa profissão proporcionou-lhe
mais tarde um grande incremento em sua obra missionária.
Após completar seus estudos com Gamaliel, esse jovem
fariseu provavelmente voltou para sua casa em Tarso
onde passou alguns anos. Não temos evidência de que
ele se tenha encontrado com Jesus ou que o tivesse conhecido
durante o ministério do Mestre na terra.
Da pena do próprio Paulo bem como do livro de Atos vem-nos
a informação de que depois ele voltou a Jerusalém e
dedicou suas energias à perseguição dos judeus que seguiam
os ensinamentos de Jesus de Nazaré. Paulo nunca pôde
perdoar-se pelo ódio e pela violência que caracterizaram
sua vida durante esses anos. “Porque eu sou o menor
dos apóstolos”, escreveu ele mais tarde, “. . . pois
persegui a igreja de Deus” (1 Co 15:9). Em outras passagens
ele se denomina “perseguidor da igreja” (Fp 3:6), “como
sobremaneira perseguia eu a igreja de Deus e a devastava”
(Gl 1:13).
Uma referência autobiográfica na primeira carta de Paulo
a Timóteo jorra alguma luz sobre a questão de como um
homem de consciência tão sensível pudesse participar
dessa violência contra o seu próprio povo. “. . . noutro
tempo era blasfemo e perseguidor e insolente. Mas obtive
misericórdia, pois o fiz na ignorância, na incredulidade”
(1 Tm 1:13). A história da religião está repleta de
exemplos de outros que cometeram o mesmo erro. No mesmo
trecho, Paulo refere a si próprio como “o principal”
dos pecadores” (1 T 1:15), sem dúvida alguma por ter
ele perseguido a Cristo e seus seguidores.
D) A Morte de Estevão. Não fora pelo modo como Estevão
morreu (At 7:54-60), o jovem Saulo podia ter deixado
a cena do apedrejamento sem comoção alguma, ele que
havia tomado conta das vestes dos apedrejadores. Teria
parecido apenas outra execução legal.
Mas quando Estevão se ajoelhou e as pedras martirizantes
choveram sobre sua cabeça indefensa, ele deu testemunho
da visão de Cristo na glória, e orou: “Senhor, não lhes
imputes este pecado” (Atos 7:60).
Embora essa crise tenha lançado Paulo em sua carreira
como caçador de hereges, é natural supor que as palavras
de Estevão tenham permanecido com ele de sorte que ele
se tornou “caçado” também —caçado pela consciência.
E) Uma Carreira de Perseguição. Os eventos que se seguiram
ao martírio de Estevão não são agradáveis de ler. A
história é narrada num só fôlego: “Saulo, porém, assolava
a igreja, entrando pelas casas e, arrastando homens
e mulheres, encerrava-os no cárcere” (Atos 8:3).
A Conversão:
A perseguição em Jerusalém na realidade espalhou a semente
da fé. Os crentes se dispersaram e em breve a nova fé
estava sendo pregada por toda a parte (cf. Atos 8:4).
“Respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos
do Senhor” (Atos 9:1), Saulo resolveu que já era tempo
de levar a campanha a algumas das “cidades estrangeiras”
nas quais se abrigaram os discípulos dispersos. O comprido
braço do Sinédrio podia alcançar a mais longínqua sinagoga
do império em questões de religião. Nesse tempo, os
seguidores de Cristo ainda eram considerados como seita
herética.
Assim, Saulo partiu para Damasco, cerca de 240 km distante,
provido de credenciais que lhe dariam autoridade para,
encontrando os “que eram do caminho, assim homens como
mulheres, os levasse presos para Jerusalém” (Atos 9:2).
Que é que se passava na mente de Saulo durante a viagem,
dia após dia, no pó da estrada e sob o calor escaldante
do sol? A auto-revelação intensamente pessoal de Romanos
7:7-13 pode dar-nos uma pista. Vemos aqui a luta de
um homem consciencioso para encontrar paz mediante a
observância de todas as pormenorizadas ramificações
da Lei.
Isso o libertou? A resposta de Paulo, baseada em sua
experiência, foi negativa. Pelo contrário, tornou-se
um peso e uma tensão intoleráveis. A influência do ambiente
helertístico de Tarso não deve ser menosprezada ao tentarmos
encontrar o motivo da frustração interior de Saulo.
Depois de seu retorno a Jerusalém, ele deve ter achado
irritante o rígido farisaísmo, muito embora professasse
aceitá-lo de todo o coração. Ele havia respirado ar
mais livre durante a maior parte de sua vida, e não
poderia renunciar à liberdade a que estava acostumado.
Contudo, era de natureza espiritual o motivo mais profundo
de sua tristeza. Ele tentara guardar a Lei, mas descobrira
que não poderia fazê-lo em virtude de sua natureza pecaminosa
decaída. De que modo, pois, poderia ele ser reto para
com Deus?
Com Damasco à vista, aconteceu uma coisa momentosa.
Num lampejo cegante, Paulo se viu despido de todo o
orgulho e presunção, como perseguidor do Messias de
Deus e do seu povo. Estevão estivera certo, e ele errado.
Em face do Cristo vivo, Saulo capitulou. Ele ouviu uma
voz que dizia: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues;.
. . levanta-te, e entra na cidade, onde te dirão o que
te convém fazer” (At 9:5-6). E Saulo obedeceu.
Durante sua estada na cidade, “Esteve três dias sem
ver, durante os quais nada comeu nem bebeu” (Atos 9:9).
Um discípulo residente em Damasco, por nome Ananias,
tornou-se amigo e conselheiro, um homem que não teve
receio de crer que a conversão de Paulo’ fora autêntica.
Mediante as orações de Ananias, Deus restaurou a vista
a Paulo.
O MINISTÉRIO DO APOSTOLO PAULO
Paulo começou, na sinagoga de Damasco, a dar testemunho
de sua fé recém-encontrada. O tema de sua mensagem concernente
a Jesus era: “Este é o Filho de Deus” (At 9:20). Mas
Paulo tinha de aprender amargas lições antes que pudesse
apresentar-se como líder cristão confiável e eficiente.
Descobriu que as pessoas não se esquecem com facilidade;
os erros do homem podem persegui-lo por um longo tempo,
mesmo depois que ele os tenha abandonado. Muitos dos
discípulos suspeitavam de Paulo, e seus ex-companheiros
de perseguições o odiavam. Ele pregou por breve tempo
em Damasco, foi-se para a Arábia e depois voltou para
Damasco.
A segunda tentativa de Paulo de pregar em Damasco igualmente
não teve bom resultado. Um ano ou dois haviam decorrido
desde a sua conversão, mas os judeus se lembravam de
como ele havia desertado de sua primeira missão em Damasco.
O ódio contra ele inflamou-se de novo e “deliberaram
entre si tirar-lhe a vida” (At 9:23). A dramática história
da fuga de Paulo por sobre a muralha, num cesto, tem
prendido a imaginação de muitos.
Os dias de preparação de Paulo não estavam terminados.
O relato que ele faz aos gálatas continua, dizendo:
“Decorridos três anos, então subi a Jerusalém. . .“
(Gl 1:18). Ali ele encontrou a mesma hostil recepção
que teve em Damasco. Uma vez mais foi obrigado a fugir.
Paulo desapareceu por alguns anos. Esses anos que ele
passou escondido deram-lhe convicções amadurecidas e
estatura espiritual de que ele necessitaria em seu ministério.
Em Antioquia, os gentios estavam sendo convertidos a
Cristo. A Igreja em Jerusalém teve de decidir como cuidar
desses novos crentes. Foi então que Barnabé se lembrou
de Paulo e se dirigiu a Tarso à sua procura (At 11:25).
Barnabé já tinha sido instrumento na apresentação de
Paulo em Jerusalém, num esforço por afastar suspeita
contra ele.
A esses dois homens foi confiada a tarefa de levar socorro
à Judéia onde os seguidores de Jesus estavam passando
fome. Quando Barnabé e Paulo voltaram a Antioquia, missão
cumprida, trouxeram consigo o jovem João, apelidado
Marcos, sobrinho de Barnabé (At 12:25).
As Viagens Missionárias:
A jovem e florescente igreja de Antioquia resolve enviar
a Barnabé e a Paulo como missionários. O primeiro porto
de escala na primeira viagem missionária foi Salamina,
na ilha de Chipre, terra natal de Barnabé. Este fato,
juntamente com a freqüente apresentação que a Bíblia
faz desses missionários como “Barnabé e Saulo” indica
que Paulo desempenhava papel secundário. Esta era a
viagem de Barnabé; Paulo exercia o segundo posto de
comando, e os dois tinham “João [Marcos] como auxiliar”
(At 13:5).
O êxito de seus esforços missionários nessa ilha incentivaram
Paulo e seus parceiros a avançar para território mais
difícil. Fizeram uma viagem mais longa por mar, desta
vez até Perge, já em terras continentais da Ásia Menor.
Dali Paulo pretendia viajar pelo interior numa missão
perigosa até à Antioquia da Pisídia.
Mas, exatamente neste ponto, aconteceu algo que causou
muita dor de cabeça aos três. O ajudante, João Marcos,
“apartando-se deles, voltou para Jerusalém” (At 13:13),
onde morava. A Bíblia não nos diz por quê, embora seja
natural conjeturar que lhe faltaram coragem e confiança.
A súbita mudança dos planos de Marcos causaria, mais
tarde, conflito entre Paulo e Barnabé.
Em Antioquia, Paulo tomou-se o porta-voz e criou-se
um padrão conhecido de todos. Alguns criam em sua mensagem
e se regozijavam; outros a rejeitavam e provocavam oposição.
Aconteceu pela primeira vez em Antioquia, depois em
Icônio. Em Listra ele foi apedrejado e dado por morto
(At 14:19), mas sobreviveu e pôde prosseguir até à cidade
de Derbe.
A visita de Paulo e Barnabé a Derbe completou a sua
primeira viagem. Logo Paulo resolveu percorrer de novo
a difícil rota sobre a qual ele tinha vindo, a fim de
fortalecer, encorajar e organizar os grupos cristãos
que ele e Barnabé haviam estabelecido.
Nisto discernimos o plano de Paulo de estabelecer congregações
nas principais cidades do Império. Ele não deixava seus
convertidos desorganizados e sem liderança capaz, mas,
pelo mesmo motivo, não permanecia muito tempo num só
lugar.
Os judeus muitas vezes faziam convertidos entre os gentios,
mas estes eram mantidos numa posição de “segunda classe”.
A não ser que estivessem preparados para submeter-se
à circuncisão e aceitar a interpretação da Lei segundo
os fariseus, eles permaneciam à margem da congregação
judaica. Mesmo que chegassem a esse ponto, o fato de
não terem nascido judeus ainda os barrava de usufruir
completa comunhão.
Assim, qual seria a relação dos convertidos gentios
com a comunidade cristã? Paulo e Barnabé viajaram a
Jerusalém a fim de conferenciar com os dirigentes ali
a respeito desse problema fundamental.
Em Jerusalém, Paulo expôs as suas convicções e saiu
vencedor. A descrição da controvérsia que o próprio
Paulo apresenta aos gálatas declara que lhe estenderam
“a destra de comunhão” e igualmente a Barnabé. Os dirigentes
da igreja concordaram em que “nós fôssemos para os gentios”
(Gl 2:9).
Após a conferência de Jerusalém, Paulo e Barnabé “demoraram-se
em Antioquia, ensinando e pregando,.. . a palavra do
Senhor” (Atos 15:35). Aqui, dois incidentes causaram
severas tensões às relações de trabalho de Paulo com
Pedro e Barnabé.
O primeiro desses incidentes surgiu dos mesmos problemas
que provocaram a conferência de Jerusalém. A conferência
havia liberado os gentios do regulamento judaico da
circuncisão. Contudo, não havia decidido se os cristãos
de origem judaica poderiam comer com os convertidos
gentios. Pedro tomou posição ao lado de Paulo nessa
praxe, o que envolvia relaxar os regulamentos dos judeus
com vistas a alimentos. Na realidade, Pedro deu o exemplo
comendo com gentios. Mais tarde, porém, ele “afastou-se
e, por fim, veio a apartar-se” (Gl 2:12), e Barnabé
se deixou levar “pela dissimulação deles” (v. 13).
Paulo, considerando esses atos como nova ameaça à sua
missão entre os gentios, recorreu a uma medida drástica.
“Resisti-lhe [a Pedro] face a face, porque se tornara
repreensível” (Gálatas 2:11). Ele fez isso “na presença
de todos” (v. 14). Em outras palavras, ele recorreu
à censura pública.
Esse incidente ajuda-nos a entender o segundo, que Lucas
registra em Atos 15:36-40. Barnabé desejava que o jovem
Marcos os acompanhasse na segunda viagem missionária;
Paulo opôs-se à idéia. E a narrativa diz que “houve
entre eles tal desavença que vieram a separar-se” (v.
39).
Não sabemos se Paulo e Barnabé voltaram a encontrar-se.
Eles concordaram em discordar” e empreenderam viagens,
cada um para seu lado. Sem dúvida o evangelho foi desse
modo promovido mais do que se tivessem permanecido juntos.
Então “Paulo, tendo escolhido a Silas, partiu. . . E
passou pela Síria e Cilícia, confirmando as igrejas”
(Atos 15:40, 41). Depois de nova visita a Derbe, o último
ponto visitado na primeira viagem, Paulo e seu grupo
prosseguiram até Listra para ver seus convertidos nesta
cidade. Aqui Paulo encontrou um jovem cristão chamado
Timóteo (Atos 16:1), e viu nele um substituto potencial
para Marcos.
O que aconteceu aqui redimiu Paulo de qualquer acusação
de não se mostrar disposto a depositar confiança em
homens mais moços do que ele. Em 1 Tm 1:2 dirigiu-se
ao jovem Timóteo “verdadeiro filho”, e na segunda epístola
fala dele como “amado filho” (2 Tm 1:2). Na segunda
epístola lemos também: “pela recordação que guardo da
tua fé, a mesma que primeiramente habitou em tua avó
Lóide, e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também
em ti” (2 Tm 1:5). Esta referência pode significar que
a família de Timóteo fora ganha para Cristo por Paulo
e Barnabé na sua primeira viagem. Por certo, quando
Paulo voltou, ele quis que Timóteo “fosse em sua companhia”
(At 16:3). Este mesmo versículo acrescenta que Paulo
“circuncidou-o por causa dos judeus”. Era esta atitude
coerente com o julgamento anterior de Paulo sobre Pedro?
Ou se devia ao fato de ter ele aprendido a não criar
problemas desnecessários? De qualquer modo, uma vez
que Timóteo era meio-judeu, esta decisão evitaria problemas
muitas vezes. Paulo sabia como lutar por um principio
e como ceder por conveniência quando não estava em jogo
nenhum princípio. Paulo sustentava que a circuncisão
não era necessária à salvação (cf. Gálatas), mas estava
pronto para circuncidar um judeu cristão como uma questão
de conveniência.
Quando o grupo de evangelistas (dirigido de algum modo
não especificado pelo Espírito Santo — At 16:6-8) chegou
a Trôade e se pôs a contemplar o outro lado da estreita
península, deve ter ponderado sobre a perspectiva de
avançar sua campanha ao continente europeu. A decisão
foi tomada quando “à noite, sobreveio a Paulo uma visão,
na qual um varão macedônio estava em pé e lhe rogava,
dizendo: Passa à Macedônia e ajuda-nos” (At 16:9). A
resposta de Paulo foi imediata. O grupo navegou para
a Europa. Muitos escritores têm sugerido que esse “varão
macedônio” pode ter sido o médico Lucas. De qualquer
maneira, parece que neste ponto ele entrou no drama
de viagem, porque agora ele começa a referir-se aos
missionários como “nós”.
A viagem continuou ao longo da grande estrada romana
que corre para o Ocidente através das principais cidades
da Macedônia — desde Filipos até Tessalônica, e de Tessalônica
a Beréia. Durante três semanas, Paulo falou na sinagoga
de Tessalônica; depois foi para Atenas, centro da erudição
grega, e cidade onde dominava a idolatria (At 17:16).
Incansável, ele partiu para Corinto.
Sua primeira e grande missão no mundo gentio estendeu-se
por quase três anos. Depois ele voltou a Antioquia.
Após uma curta permanência em Antioquia, Paulo partiu
em sua terceira viagem missionária no ano 52 d.C. Desta
vez suas primeiras paradas foram na Galácia e na Frígia.
Depois de visitar as igrejas em Derbe, Listra, Icônio
e Antioquia, ele resolveu fazer algum trabalho missionário
intensivo em Éfeso, a capital da província romana da
Ásia. Estrategicamente localizada para comércio, era
superada somente por Roma, Alexandria e Antioquia em
tamanho e importância. Como resultado dos trabalhos
de Paulo ali, ela tornou-se a terceira mais importante
cidade na história do Cristianismo primitivo — Jerusalém,
Antioquia, depois Éfeso.
Paulo chegou a Éfeso para empreender o que provou ser
as mais extensas e exitosas de suas atividades missionárias
em qualquer localidade. Mas esses anos lhe foram estrênuos.
Visto que ele sustentava a si próprio trabalhando em
sua profissão, seus dias eram longos. Seguindo o costume
dos trabalhadores de um clima tão quente, ele levantava-se
antes de raiar o dia e começava a trabalhar. As horas
da tarde ele as empregava no ensino e pregação, e é
provável que também as horas vespertinas. Isto ele fez
“diariamente” durante “dois anos”. Em sua própria descrição
desses trabalhos, Paulo acrescenta que ele não só ensinava
em público, mas “também de casa em casa” (At 20:20).
Teve êxito — muito bom êxito. Somos informados de “milagres
extraordinários” (At 19:11) ocorridos durante esses
dias agitados em Éfeso. A nova fé causou tal impacto
sobre a cidade que “muitos dos que haviam praticado
artes mágicas, reunindo os seus livros, os queimaram
diante de todos” (At 19:19). Isso suscitou o ódio dos
adoradores pagãos, temerosos de que os cristãos solapassem
a influência de sua religião.
Depois de três invernos em Éfeso, Paulo passou o seguinte
em Corinto, em concordância com a promessa e a esperança
expressas em 1 Co 16:5-7. Ali Paulo fez outros preparativos
para uma visita a Roma. Escreveu uma carta, dizendo
aos cristãos de Roma: “Muito desejo ver-vos, . . . muitas
vezes me propus ir ter convosco” (Rm 1:11, 13), e “penso
em fazê-lo quando em viagem para a Espanha” (Rm 15:24).
Paulo ignorou as advertências sobre os perigos que o
ameaçavam se ele aparecesse de novo em Jerusalém. Ele
achava que era decisivo voltar em pessoa, como portador
da oferta das congregações gentias. Ele estava “pronto
não só para ser preso, mas até para morrer em Jerusalém,
pelo nome do Senhor Jesus” (At 21:13). De modo que Paulo
foi de novo a Jerusalém, e Lucas escreve que “os irmãos
nos receberam com alegria” (At 21:17). Mas espreitando
nas sombras estava uma comissão de recepção com intenções
diferentes.
PAULO, PRESO E JULGADO
Os cristãos de Jerusalém ficaram felizes ao ouvir o
relatório de Paulo sobre a divulgação da fé cristã.
Contudo, alguns cristãos judeus duvidaram da sinceridade
de Paulo. Para mostrar seu respeito pela tradição judaica,
Paulo juntou-se a quatro homens que cumpriam um voto
de nazireu no templo. Alguns judeus da Ásia agarraram
Paulo e falsamente o acusaram de introduzir gentios
no templo (At 21:27-29). O tribuno da guarnição romana
levou Paulo em custódia para impedir um levante. Ao
saber que Paulo era cidadão romano, o tribuno retirou-lhe
as cadeias e pediu aos judeus que convocassem o Sinédrio
para interrogá-lo.
Paulo percebeu que a multidão enfurecida poderia matá-lo.
Assim, ele disse ao Sinédrio que fora preso por ser
fariseu e crer na ressurreição dos mortos. Esta afirmação
dividiu o Sinédrio em suas facções de fariseus e saduceus,
e o comandante romano teve de salvar Paulo de novo.
Ouvindo dizer que os judeus tramavam uma emboscada contra
Paulo, o comandante enviou-o de noite a Cesaréia, onde
ficou guardado no palácio de Herodes. Paulo passou dois
anos presos aí.
Quando os acusadores de Paulo chegaram, acusaram-no
de haver tentado profanar o templo e de ter criado uma
revolta civil em Jerusalém (At 24:1-9). Félix, procurador
romano, exigiu mais provas do tribuno em Jerusalém.
Mas antes que estas chegassem, Félix foi substituído
por um novo procurador, Pórcio Festo. Este novo oficial
pediu aos acusadores de Paulo que viessem de novo a
Cesaréia. Ao chegarem, Paulo fez valer os seus direitos
como cidadão romano de apresentar seu caso perante César.
Enquanto aguardava o navio para Roma, Paulo teve oportunidáde
de defender a sua causa perante o rei Agripa II que
visitava Festo. O capítulo 26 de Atos registra o discurso
de Paulo no qual ele contou de novo os eventos de sua
vida até aquele ponto.
Festo entregou Paulo aos cuidados de um centurião chamado
Júlio, que estava levando um navio carregado de prisioneiros
para a cidade imperial. Após uma viagem acidentada,
o navio naufragou na ilha de Malta. Três meses depois,
Paulo e os demais prisioneiros tomaram outro navio para
Roma.
Os cristãos de Roma viajaram quase cinqüenta quilômetros
para dar as boas-vindas a Paulo (At 28:15). Em Roma
Paulo foi posto sob prisão domiciliar, e em At 28:30
lemos que ele alugou uma casa por dois anos enquanto
aguardava que César ouvisse o seu caso.
O Novo Testamento não nos fala da morte de Paulo. Muitos
estudiosos modernos crêem que César libertou o apóstolo,
e que ele empenhou-se em mais trabalho missionário antes
de ser preso pela segunda vez e executado.3
Dois livros escritos antes do ano 200 d.C. — a Primeira
Epístola de Clemente e os Atos de Paulo — asseveram
que isso aconteceu. Indicam que Paulo foi decapitado
em Roma perto do fim do reinado do imperador Nero (c.
67 d.C.).
A personalidade do Apostolo:
As epístolas de Paulo são o espelho de sua alma. Revelam
seus motivos íntimos, suas mais profundas paixões, suas
convicções fundamentais. Sem a sobrevivência das cartas
de Paulo, ele seria para nós uma figura vaga, confusa.
Paulo estava mais interessado nas pessoas e no que lhes
acontecia do que em formalidades literárias. A medida
que lemos os escritos de Paulo, notamos que suas palavras
podem vir aos borbotões, como no primeiro capítulo da
carta aos Gálatas. As vezes ele irrompe abruptamente
para mergulhar numa nova linha de pensamento. Nalguns
pontos ele toma um longo fôlego e dita uma sentença
quase sem fim.
Temos em 2 Co 10:10 uma pista de como as epístolas de
Paulo eram recebidas e consideradas. Mesmo seus inimigos
e críticos reconheciam o impacto do que ele tinha para
dizer, pois sabemos que comentavam: “As cartas, com
efeito, dizem, são graves e fortes.. (2 Co 10:10).
Líderes fortes, como Paulo, tendem a atrair ou repelir
os que eles buscam influenciar. Paulo tinha tanto seguidores
devotados quanto inimigos figadais. Como conseqüência,
seus contemporâneos mantinham opiniões variadíssimas
a seu respeito.
Os mais antigos escritos de Paulo antedata a maioria
dos quatro Evangelhos. Refletem-no como um homem de
coragem (2 Co 2:3), de integridade e elevados motivos
(vv. 4-5), de humildade (v. 6), e de benignidade (v.
7).
Paulo sabia diferençar entre sua própria opinião e o
“mandamento do Senhor” (1 Co 7:25). Era humilde bastante
para dizer “segundo minha opinião” sobre alguns assuntos
(1 Co 7:40). Ele estava bem cônscio da urgência de sua
comissão (1 Co 9:16-17), e do fato de não estar fora
do perigo de ser “desqualificado” por sucumbir à tentação
(1Co 9.27). Ele se recorda com pesar de que outrora
perseguia a Igreja de Deus (1Co 15.9).
Leia o capítulo 16 da carta aos Romanos com especial
atenção à atitude generosa de Paulo para com os seus
colaboradores. Ele era um homem que amava e prezava
as pessoas e tinha em alto apreço a comunhão dos crentes.
Na carta aos Colossenses vemos quão afetivo e amistoso
Paulo poderia ser, mesmo com cristãos com os quais ainda
não se havia encontrado. “Gostaria, pois, que saibais,
quão grande luta venho mantendo por vós. . . e por quantos
não me viram face a face”, escreve ele (Cl 2:1).
Na carta aos Colossenses lemos também a respeito de
um homem chamado Onésimo, escravo fugitivo (Cl 4:9;
Fm 10), que evidentemente havia acrescentado ao furto
o crime de abandonar o seu dono, Filemom. Agora Paulo
o havia conquistado para a fé cristã e o persuadira
de voltar ao seu senhor. Mas conhecendo a severidade
do castigo imposto aos escravos fugitivos, o apóstolo
desejava convencer a Filemom a tratar Onésimo como irmão.
Aqui vemos Paulo, o reconciliador. E tudo isso ele fez
a favor de um homem que estava no degrau mais baixo
da escada da sociedade romana. Contraste essa atitude
com o comportamento do jovem Saulo guardando as vestes
dos apedrejadores de Estevão. Observe quão profundamente
Paulo havia mudado em sua atitude para com as pessoas.
Nesses escritos vemos Paulo como amigo generoso, afetivo,
um homem de grande fé e coragem— mesmo em face de circunstâncias
extremas. Ele estava totalmente comprometido com Cristo,
quer na vida, quer na morte. Seu testemunho é profundamente
firmado nas realidades espirituais: “Tanto sei estar
humilhado, como também ser honrado; de tudo e em todas
as circunstâncias já tenho experiência, tanto de fartura,
como de fome; assim de abundância, como de escassez;
tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4:12-13).