"A
Igreja ao gosto do freguês"
Por: Rodrigo de Deus Rocha
O movimento chamado "igreja ao
gosto do freguês" está
invadindo muitas denominações
evangélicas, propondo evangelizar
através da aplicação
das últimas técnicas de
marketing. Tipicamente, ele começa
pesquisando os não-crentes (que
um dos seus líderes chama de
"desigrejados" ou "João
e Maria desigrejados"). A pesquisa
questiona os que não freqüentam
quaisquer igrejas sobre o tipo de atração
que os motivaria a assistir às
reuniões. Os resultados do questionário
mostram as mudanças que poderiam
ser feitas nos cultos e em outros programas
para atrair os "desigrejados",
mantê-los na igreja e ganhá-los
para Cristo. Os que desenvolvem esse
método garantem o crescimento
das igrejas que seguirem cuidadosamente
suas diretrizes aprovadas. Praticamente
falando, dá certo!
Duas
igrejas são consideradas modelos
desse movimento: Willow Creek Community
Church (perto de Chicago), pastoreada
por Bill Hybels, e Saddleback Valley
Church (ao sul de Los Angeles) pastoreada
por Rick Warren. Sua influência
é inacreditável. Willow
Creek formou sua própria associação
de igrejas, com 9.500 igrejas-membros.
Em 2003, 100.000 líderes de igrejas
assistiram no mínimo a uma conferência
para líderes realizada por Willow
Creek. Acima de 250.000 pastores e líderes
de mais de 125 países participaram
do seminário de Rick Warren ("Uma
Igreja com Propósitos").
Mais de 60 mil pastores recebem seu
boletim semanal.
Visitamos
Willow Creek há algum tempo.
Pareceu-nos que essa igreja não
poupa despesas em sua missão
de atrair as massas. Depois de passar
por cisnes deslizando sobre um lago
cristalino, vê-se o que poderia
ser confundido com a sede de uma corporação
ou um shopping center de alto padrão.
Ao lado do templo existe uma grande
livraria e uma enorme área de
alimentação completa,
que oferece cinco cardápios diferentes.
Uma tela panorâmica permite aos
que não conseguiram lugar no
santuário ou que estão
na praça de alimentação
assistirem aos cultos. O templo é
espaçoso e moderno, equipado
com três grandes telões
e os mais modernos sistemas de som e
iluminação para a apresentação
de peças de teatro e musicais.
Sem
dúvida, Willow Creek é
imponente, mas não é a
única megaigreja que tem como
alvo alcançar os perdidos através
dos mais variados métodos. Megaigrejas
através dos EUA adicionam salas
de boliche, quadras de basquete, salões
de ginástica e sauna, espaços
para guardar equipamentos, auditórios
para concertos e produções
teatrais, franquias do McDonalds, tudo
para o progresso do Evangelho. Pelo
menos é o que dizem. Ainda que
algumas igrejas estejam lotadas, sua
freqüência não é
o único elemento que avaliamos
ao analisar essa última moda
de "fazer igreja".
O
alvo declarado dessas igrejas é
alcançar os perdidos, o que é
bíblico e digno de louvor. Mas
o mesmo não pode ser dito quanto
aos métodos usados para alcançar
esse alvo. Vamos começar pelo
marketing como uma tática para
alcançar os perdidos. Fundamentalmente,
marketing traça o perfil dos
consumidores, descobre suas necessidades
e projeta o produto (ou imagem a ser
vendida) de tal forma que venha ao encontro
dos desejos do consumidor. O resultado
esperado é que o consumidor compre
o produto. George Barna, a quem a revista
Christianity Today (Cristianismo Hoje)
chama de "o guru do crescimento
da igreja", diz que tais métodos
são essenciais para a igreja
de nossa sociedade consumista. Líderes
evangélicos do movimento de crescimento
da igreja reforçam a idéia
de que o método de marketing
pode ser aplicado ? e eles o têm
aplicado ? sem comprometer o Evangelho.
Será?
Em
primeiro lugar o Evangelho, e mais significativamente
a pessoa de Jesus Cristo, não
cabem em nenhuma estratégia de
mercado. Não são produtos
a serem vendidos. Não podem ser
modificados ou adaptados para satisfazer
as necessidades de nossa sociedade consumista.
Qualquer tentativa nessa direção
compromete de algum modo a verdade sobre
quem é Cristo e do que Ele fez
por nós. Por exemplo, se os perdidos
são considerados consumidores,
e um mandamento básico de marketing
diz que o freguês sempre tem razão,
então qualquer coisa que ofenda
os perdidos deve ser deixada de lado,
modificada ou apresentada como sem importância.
A Escritura nos diz claramente que a
mensagem da cruz é "loucura
para os que se perdem" e que Cristo
é uma "pedra de tropeço
e rocha de ofensa" (1 Co 1.18 e
1 Pe 2.8).
Megaigrejas
adicionam salas de boliche, quadras
de basquete, salões de ginástica
e sauna, auditórios para concertos
e produções teatrais,
franquias do McDonalds.
Algumas
igrejas voltadas ao consumidor procuram
evitar esse aspecto negativo do Evangelho
de Cristo enfatizando os benefícios
temporais de ser cristão e colocando
a pessoa do consumidor como seu principal
ponto de interesse. Mesmo que essa abordagem
apele para a nossa geração
acostumada à gratificação
imediata, ela não é o
Evangelho verdadeiro nem o alvo de vida
do crente em Cristo.
Em
segundo lugar, se você quiser
atrair os perdidos oferecendo o que
possa interessá-los, na maior
parte do tempo estará apelando
para seu lado carnal. Querendo ou não,
esse parece ser o modus operandi dessas
igrejas. Elas copiam o que é
popular em nossa cultura ? músicas
das paradas de sucesso, produções
teatrais, apresentações
estimulantes de multimídia e
mensagens positivas que não ultrapassam
os trinta minutos. Essas mensagens freqüentemente
são tópicas, terapêuticas,
com ênfase na realização
pessoal, salientando o que o Senhor
pode oferecer, o que a pessoa necessita
? e ajudando-a na solução
de seus problemas.
Essas
questões podem não importar
a um número cada vez maior de
pastores evangélicos, mas, ironicamente,
estão se tornando evidentes para
alguns observadores seculares. Em seu
livro The Little Church Went to Market
(A Igrejinha foi ao Mercado), o pastor
Gary Gilley observa que o periódico
de marketing American Demographics reconhece
que as pessoas estão:
...procurando
espiritualidade, não a religião.
Por trás dessa mudança
está a procura por uma fé
experimental, uma religião do
coração, não da
cabeça. É uma expressão
de religiosidade que não dá
valor à doutrina, ao dogma, e
faz experiências diretamente com
a divindade, seja esta chamada "Espírito
Santo" ou "Consciência
Cósmica" ou o "Verdadeiro
Eu". É pragmática
e individual, mais centrada em redução
de stress do que em salvação,
mais terapêutica do que teológica.
Fala sobre sentir-se bem, não
sobre ser bom. É centrada no
corpo e na alma e não no espírito.
Alguns gurus do marketing começaram
a chamar esse movimento de "indústria
da experiência" (pp. 20-21).
Existe
outro item que muitos pastores parecem
estar deixando de considerar em seu
entusiasmo de promover o crescimento
da igreja atraindo os não-salvos.
Mesmo que os números pareçam
falar mais alto nessas "igrejas
ao gosto do freguês" (um
número surpreendente de igrejas
nos EUA (841) alcançaram a categoria
de megaigreja, com 2.000 a 25.000 pessoas
presentes nos finais de semana), poucos
perceberam que o aumento no número
de membros não se deve a um grande
número de "desigrejados"
juntando-se à igreja.
Durante
os últimos 70 anos, a percentagem
da população dos EUA que
vai à igreja tem sido relativamente
constante (mais ou menos 43%). Houve
um crescimento, chegando a 49% em 1991
(no tempo do surgimento dessa nova modalidade
de igreja), mas tal crescimento diminuiu
gradualmente, retornando a 42% em 2002
(www.barna.org). De onde, então,
essas megaigrejas, que têm se
esforçado para acomodar pessoas
que nunca se interessaram pelo Evangelho,
conseguem seus membros? Na maior parte,
de igrejas menores que não estão
interessadas ou não têm
condições financeiras
de propiciar tais atrações
mundanas. O que dizer das multidões
de "desigrejados" que supostamente
se chegaram a essas igrejas? Essas pessoas
constituem uma parcela muito pequena
das congregações. G.A.
Pritchard estudou Willow Creek por um
ano e escreveu um livro intitulado Willow
Creek Seeker Services (Baker Book House,
1996). Nesse livro ele estima que os
"desigrejados", que seriam
o público-alvo, constituem somente
10 ou 15% dos 16.000 membros que freqüentam
os cultos de Willow Creek.
O
Evangelho e a pessoa de Jesus Cristo
não cabem em nenhuma estratégia
de mercado. Não são produtos
a serem vendidos.
Se
essa percentagem é típica
entre igrejas "ao gosto do freguês",
o que provavelmente é o caso,
então a situação
é bastante perturbadora. Milhares
de igrejas nos EUA e em outros países
se reestruturaram completamente, transformando-se
em centros de atração
para "desigrejados". Isso,
aliás, não é bíblico.
A igreja é para a maturidade
e crescimento dos santos, que saem pelo
mundo para alcançar os perdidos.
Contudo, essas igrejas voltaram-se para
o entretenimento e a conveniência
na tentativa de atrair "João
e Maria", fazendo-os sentirem-se
confortáveis no ambiente da igreja.
Para que eles continuem freqüentando
a "igreja ao gosto do freguês",
evita-se o ensino profundo das Escrituras
em favor de mensagens positivas, destinadas
a fazer as pessoas sentirem-se bem consigo
mesmas. À medida que "João
e Maria" continuarem freqüentando
a igreja, irão assimilar apenas
uma vaga alusão ao ensino bíblico
que poderá trazer convicção
de pecado e verdadeiro arrependimento.
O que é ainda pior, os novos
membros recebem uma visão psicologizada
de si mesmos que deprecia essas verdades.
Contudo, por pior que seja a situação,
o problema não termina por aí.
A
maior parte dos que freqüentam
as "igrejas ao gosto do freguês"
professam ser cristãos. No entanto,
eles foram atraídos a essas igrejas
pelas mesmas coisas que atraíram
os não-crentes, e continuam sendo
alimentados pela mesma dieta biblicamente
anêmica, inicialmente elaborada
para não-cristãos. Na
melhor das hipóteses, eles recebem
leite aguado; na pior das hipóteses,
"alimento" contaminado com
"falatórios inúteis
e profanos e as contradições
do saber, como falsamente lhe chamam"
(2 Tm 6.20). Certamente uma igreja pode
crescer numericamente seguindo esses
moldes, mas não espiritualmente.
Além
do mais, não há oportunidades
para os crentes crescerem na fé
e tornarem-se maduros em tal ambiente.
Tentando defender a "igreja ao
gosto do freguês", alguns
têm argumentado que os cultos
durante a semana são separados
para discipulado e para o estudo profundo
das Escrituras. Se esse é o caso,
trata-se de uma rara exceção
e não da regra!
Como
já notamos, a maioria dessas
igrejas, no uso do seu tempo, energia
e finanças tem como alvo acomodar
os "desigrejados". Conseqüentemente,
semana após semana, o total da
congregação recebe uma
mensagem diluída e requentada.
Então, na quarta-feira, quando
a congregação usualmente
se reduz a um quarto ou a um terço
do tamanho normal, será que esse
pequeno grupo recebe alimentação
sólida da Palavra de Deus, ensino
expositivo e uma ênfase na sã
doutrina? Dificilmente. Nunca encontramos
uma "igreja ao gosto do freguês"
onde isso acontecesse. As "refeições
espirituais" oferecidas nos cultos
durante a semana geralmente são
reuniões de grupos e aulas visando
o discernimento dos dons espirituais,
ou o estudo de um "best-seller"
psico-cristão, ao invés
do estudo da Bíblia.
Talvez
o aspecto mais negativo dessas igrejas
seja sua tentativa de impressionar os
"desigrejados" ao mencionar
especialistas considerados autoridades
em resolver todos os problemas mentais,
emocionais e comportamentais das pessoas:
psicólogos e psicanalistas. Nada
na história da Igreja tem diminuído
tanto a verdade da suficiência
da Palavra de Deus no tocante a "todas
as coisas que conduzem à vida
e à piedade" (2 Pe 1.3)
como a introdução da pseudociência
da psicoterapia no meio cristão.
Seus milhares de conceitos e centenas
de metodologias não-comprovados
são contraditórios e não
científicos, totalmente não-bíblicos,
como já documentamos em nossos
livros e artigos anteriores. Pritchard
observa:
...em
Willow Creek, Hybels não somente
ensina princípios psicológicos,
mas freqüentemente usa esses mesmos
princípios como guias interpretativos
para sua exegese das Escrituras ? o
rei Davi teve uma crise de identidade,
o apóstolo Paulo encorajou Timóteo
a fazer análise e Pedro teve
problemas em estabelecer seus limites.
O ponto crítico é que
princípios psicológicos
são constantemente adicionados
ao ensino de Hybels" (p. 156).
Durante minha visita a Willow Creek,
o pastor Hybels trouxe uma mensagem
que começou com as Escrituras
e se referia aos problemas que surgem
quando as pessoas mentem. Contudo, ele
se apoiou no psiquiatra M. Scott Peck,
o autor de The Road Less Travelled (Simon
& Schuster, 1978) quanto às
conseqüências desastrosas
da mentira. Nesse livro, M. Scott Peck
declara (pp. 269-70): "Deus quer
que nos tornemos como Ele mesmo (ou
Ela mesma)"!
Nada
na história da Igreja tem diminuído
tanto a verdade da suficiência
da Palavra de Deus no tocante a "todas
as coisas que conduzem à vida
e à piedade" (2 Pe 1.3)
como a introdução da pseudociência
da psicoterapia no meio cristão.
A
Saddleback Community Church está
igualmente envolvida com a psicoterapia.
Apesar de se dizer cristocêntrica
e não centrada na psicologia,
essa igreja tem um dos maiores números
de centros dos Alcoólicos Anônimos
e patrocina mais de uma dúzia
de grupos de ajuda como "Filhos
Adultos Co-Dependentes de Viciados em
Drogas", "Mulheres Co-Viciadas
Casadas com Homens Compulsivos Sexuais
ou com Desordens de Alimentação"
e daí por diante. Cada grupo
é normalmente liderado por alguém
"em recuperação"
e os autores dos livros usados incluem
psicólogos e psiquiatras (www.celebraterecovery.com).
Apesar de negar o uso de psicologia
popular, muito dela permeia o trabalho
de Rick Warren, incluindo seu best-seller
The Purpose Driven Life (A Vida Com
Propósito), que já rendeu
sete milhões de dólares.
Em sua maior parte, o livro fala de
satisfação pessoal, promove
a celebração da recuperação
e está cheio de psicoreferências
tais como "Sansão era dependente".
A
mensagem principal vinda das igrejas
psicologicamente motivadas de Willow
Creek e Saddleback é a de que
a Palavra de Deus e o poder do Espírito
Santo são insuficientes para
livrar uma pessoa de um pecado habitual
e para transformá-la em alguém
cuja vida seja cheia de fruto e agradável
a Deus. Entretanto, o que essas igrejas
dizem e fazem tem sido exportado para
centenas de milhares de igrejas ao redor
do mundo.
Grande
parte da igreja evangélica desenvolveu
uma mentalidade de viagem de recreio
em um cruzeiro cheio de atrações,
mas isso vai resultar num "Titanic
espiritual". Os pastores de "igrejas
ao gosto do freguês" (e aqueles
que estão desejando viajar ao
lado deles) precisam cair de joelhos
e ler as palavras de Jesus aos membros
da igreja de Laodicéia (Ap 3.14-21).
Eles eram "ricos e abastados"
e, no entanto, deixaram de reconhecer
que aos olhos de Deus eram "infelizes,
miseráveis, pobres, cegos e nus".
Jesus, fora da porta dessas igrejas,
onde O colocaram desapercebidamente,
oferece Seu conselho, a verdade da Sua
Palavra, o único meio que pode
fazer com que suas vidas sejam vividas
conforme Sua vontade. Não pode
existir nada melhor aqui na terra e
na Eternidade!